quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Musica de Hall

Apenas uma participação branda, coadjuvante. "So What"
Sim, esse inexorável malandro fez um disco inaugurando o "Cool" style! Ou será que isso aconteceu por causa da mudança decisiva na época, o cinema falado. Porque até o começo do século passado isso não existia, pois o cinema era mudo e as intenções eram expressadas pela música ao vivo, sendo orquestra, solista ou um grupo pequeno de música de câmara. Se levarmos em conta o conceito de música de Schopenhauer no qual a música é superior as demais artes, pois consegue expressar o que as palavras não conseguem, mas com o excêntrico apanágio de não ter representação, podemos entender como existiam filmes sem fala.
O Swing das big bands dominava geral, e de repente com a palavra falada, tudo mudou e aí começou o que muitos chamam de musica de fundo, musica de elevador, musica de hall...
Hall? Agora chegamos ao ponto! Concierto de Jim Hall!
Me parece que o compositor Joaquim Rodrigo que escreveu o lendário Concerto de Aranjuez, preferiu a gravação de Paco de Lucia a outros intérpretes desta famosa obra, levando-se em conta que Paco tem a leitura ruim, provavelmente a intuição teve um fator impreterível para a memorização da peça, pois ele é flamenco, e esses na maioria dos casos não lêem musica, mas o que o compositor espanhol não sabia era que um time de americanos da pesada iria fazer uma versão cool desta obra.
Jim Hall nasceu jazzista e acredito que isso percebe-se pelo refinamento e sensibilidade de interpretação, acredito que pode-se dizer que o jazz dele é de uma erudição brutal e um lirismo maravilhoso, basta lembrar que Pat Metheny o citou como o melhor guitarrista vivo.
Sim, o Cool jazz é como aquela mulher que está quase disfarçada para passar despercebida, mas que quando voce presta a atenção, percebe que é de uma beleza estonteante, e que muitas vezes a discrição espontânea pode ser inefável.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Hermanos latinos

Pelo que eu fiquei sabendo, meu amigo turco chamado "Ali" disse que não quer mais morar com latinos, ele mora em Barcelona e sempre dividiu o aparatamento com venezuelanos, brasileiros, colombianos, etc... Uma das observações e que também é um argumento, é o fato de que os latinos querem participar da sua vida, perguntar como estão as coisas, dar palpites e tudo mais.
Mas a pergunta que fica é: Será que alguém de fora da America latina consegue perceber a diferença entre as pessoas dessas diversas nações da America colonizada e massacrada por portugueses e espanhois?
Numa entrevista, Herbert Vianna disse que após um mega show na Argentina, um argentino pegou ele pelo colarinho e disse: Quando voces brasileiros vão entender a força que voces tem aqui na Argentina?
Imagino que deve ter sido difícil responder essa espontânea pergunta.
A verdade é que nós brasileiros nos achamos melhores que o resto da América latina, e isso já está enraizado na mentalidade brazuca. Nós ainda queremos ser brancos, achamos o padrão de beleza europeu loira de olhos azuis o ideal, precisamos ter um reconhecimento no exterior pra poder acreditar no nosso potencial, o que apenas demonstra o quanto ainda somos colonizados.
Ou será um equívoco?
Nós que fomos os únicos colonizados por portugueses nesse gigante mundo novo, ainda não percebemos a diferença nisso, falamos e fazemos piadas pejorativas dos portugas, e ainda não entendemos que nossa colonização foi heterodoxa no melhor sentido. Ou será que outros colonizadores ao invés de impor o próprio jeito de viver, dormiriam em redes e teriam filhos com as índias, e além disso ainda proibiriam usar a terminologia "caboblo" para essas crianças? Acredito que Sérgio Buarque de Holanda já nos ensinou todas as qualidades e vantagens que o Brasil teve em ter sido colonizado por Portugal... Toda essa miscigenação que é um dos pilares da personalidade do país, e a cordialidade do brasileiro...
E nós ainda não entendemos isso tudo, e continuamos com uma ingênua prepotência perante nossos hermanos latino americanos, e ainda temos a audácia de falar que os argentinos que são assim.
Nos EUA eles chamam os "Cherokee" de nativos, mas aqui no Brasil qualquer tribo é chamada de índios e com um comentário de que são preguiçosos... Os "Paralamas do Sucesso" foi a banda que mais investiu no publico latino americano e conseguiu ter uma boa resposta porque em primeiro lugar se assumiu como uma banda latina americana.
Mas também não podemos esquecer que o argentino Daniel Barenboim é o maestro da orquestra Filarmonica de Berlim, que o pianista brasileiro Nelson Freire é considerado talvez o maior pianista vivo, o violonista brasileiro Fabio Zanon é um dos maiores ícones mundiais do instrumento, e o genial uruguaio Álvaro Pierri é professor de violão na universidade de Viena, além de que as musicas do Tom Jobim são algumas das mais tocadas no mundo... Mas será que alguém sabe quem são Caitro Soto, Atahualpa Yupanqui, Agustín Barrios ou Violeta Parra?
Se não conseguimos olhar nem para nós mesmos, como vamos conseguir enxergar nossos companheiros colonizados pelos espanhois, esses que vieram pra cá e mataram mais de 100 milhões de "nativos".

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Bolhas

Mais um dia se inicia. Um sol discreto, uma temperatura estável. Hesitei em começar...
Primeira coisa, afinar. Acordei com aquela valsa na mente. Ás vezes me parece que nada importa, só aquele momento, aquela sonoridade distribuída no ar, como se estivesse pintando no silêncio... As bolhas muito bem vindas e bem acomodadas na sua rotina diária. Uma das diferenças entre o violão e os outros instrumentos, é que o violão fica encostado no coração e que o som vibra neste... Uma coisa viciante. Todo dia é preciso subir os mesmos degraus, e se um dia passa em branco, no posterior percebe-se a distância. Após algumas horas, o ápice! Peles descascando e um cansaço estimulante... A sinestesia produzida pelo som do toque sutil na boca do instrumento é inefável. Como diria o mestre Niemeyer,"de curvas é feito todo o universo"... E afinal de contas, quem não gosta de curvas? Logo, o violão com suas curvas, parece com a mulher amada, e será por isso que a maioria dos amantes deste instrumento são homens?
Para terminar o texto vou citar algumas mulheres contemporâneas maravilhosas que dominam este intrumento como poucos, por exemplo: Ana Vidovic, Li Jie, Cecília Siqueira...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Deusa

Achei que deveria fazer um texto mesmo que pequeno, afinal ela merece... E não, não é sobre a deusa grega Afrodite que causava cizânia entre Zeus e seus comparsas, e também não é sobre Frigga a deusa da fertilidade na mitologia nórdica, esta que por sinal é a origem etimológica da palavra tão adorada "friday", e por isso que na antiga Alemanha os casais costumavam se casar na sexta-feira porque era dia da deusa da fertilidade e do amor... Mas venho aqui falar sobre algo mais real e mais atual... Uma deusa de carne e osso e com um nome praticamente inacreditável. Porém, antes disso preciso introduzir algo sobre a "Sabah", esta libanesa que é uma cantora ícone em exposição na mídia árabe há mais de 5 décadas, afinal de contas ela já tem lá seus 80 anos, e já protagonizou e cantou em diversos filmes, e diga-se de passagem já casou-se 7 vezes. E foi em alguma madrugada no RJ na casa da minha mama, que eu descobri esse video no Youtube com Sabah e a deusa libanesa chamada "ROLA", e eu não acreditei... Que bizarro!
Mas meus amigos acreditem, essa Rola eu até... O video se chama "Yana Yana", e parece que foi um clássico na voz de Sabah algumas décadas atrás, mas elas regravaram em 2006 (se não me engano) e neste video podemos conferir a beleza estonteante da deusa libanesa, mas com esse nome fica realmente difícil...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Primeira aula

Minha primeira aula com o Olmir "Alemão" foi decisiva... Lembro-me de encontrar um senhor bem tranquilo com sua guitarra Gibson 175 que já fez trilha sonora em vários países pelo mundo. Uma das primeiras lições foi dizer-me que ao compor uma musica, mantenha a tonalidade original, pois o cérebro é capaz de captar cores e cada tom é uma cor, logo se mudarmos o tom, mudamos a cor da musica. Depois me disse a respeito da melodia, isso foi genial, o mestre me disse que uma melodia é que nem uma mulher, e a harmonia é a roupa que colocamos nela, então se a harmonia for rica e elaborada enfatizando a beleza das curvas da melodia poderemos embelezar mais a melodia, e se a harmonia for feia mas a melodia bonita estamos desperdiçando uma bela silhueta. E depois me disse que a "moeda" foi inventada na China, e que antes da moeda, os negócios eram na base da troca, e que essa troca era feita pela arte entre os povos, logo se um povo se entediava com a arte do outro povo, não havia troca,
mas quando a moeda foi estipulada, uma decisão latente veio a tona, ou seja, "dinheiro ou arte?" E a partir disso o dinheiro e a arte se separaram para sempre, pois a cultura virou algo secundário...
Além dessas e outras várias lições na música e na vida que aprendi com o velhinho que agora está com 71 anos, o que me marcou é a humildade de um dos maiores guitarristas da história, e isso não é uma mera opinião, pois como diria Platão a "opinião" é algo que fica entre a visão do especialista e a tolice, e nessa área eu estou mais para especialista do que para "achismos"... Ou será que Vicente Amigo (que é o mais famoso violonista flamenco espanhol atual, considerado por muitos o sucessor do Paco de Lucia), e Leo Brower um dos maiores e mais renomados compositores contemporâneos iriam pagar para ver o velhinho tocar na Espanha só por curiosidade?
Não, pode acreditar que não, eles com certeza sabiam que estavam diante de um gigante das 6 cordas, afinal quem não sabe disso ainda, somos nós...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Suburbano convicto

Se tem um programa da televisão brasileira que me garante diversão e conhecimento é o "Provocações" da TV Cultura. Outro dia assisti a esse programa e era a entrevista do Alessandro Buzo, este que pode ser considerado um herói da periferia entre outros como por exemplo o Junior do Afroreggae, e o Ferréz. Abujamra perguntou ao Buzo: O que é ser suburbano convicto?
E ele disse com toda a tranquilidade: É aquele que quer mudar a periferia e não aquele que quer se mudar da periferia...
Acredito que para as pessoas da periferia eles são uma grande referência e despertam a possibilidade de ter uma vida com dignidade, mas acho que o mais importante é o estímulo que eles passam em relação a literatura, pois todos sabem que a literatura e a educação são a revolução da qual o Brasil precisa. Claro que as pessoas da periferia precisavam de um porta-voz próximo a eles, alguém em quem eles possam se ver e se identificar, mas alguém que tenha percepção do universo além da periferia e que saiba entender e desmistificar a falsa ilusão de que quem não tem cultura inventa uma. Uma questão de referência e uma referência que abre um irreversível caminho na mente daqueles que não tinham esperança...
Eu acredito que esses são alguns dos heróis que o Brasil precisa, afinal esses citados tem uma importânica decisiva e impreterível para muitos que estavam perdidos até então...
E para terminar o texto vou tentar escrever sobre aquele momento da entrevista em que Abujamra diz ao entrevistado que ele pode dizer o que quer e usar toda a liberdade que nunca teve, e Buzo disse algo assim:
A revolução vai acontecer quando a mulecada parar de ficar só no Orkut e começar a entrar em sites e usufruir todo o conhecimento que a internet nos porporciona...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Limpeza

Após uma conversa despretensiosa com o mestre na aula matinal de hoje, decidi escrever sobre um dos temas que conversamos. Ele me disse de uma forma bem clara algo que eu sempre pensei... Afinal, por que os pianistas de jazz tem o som limpo enquanto os violonistas de música popular tem um som porco e enroscado?
Claro que eu não quero generalizar, apenas entender... Talvez Bill Evans seja meu pianista preferido de jazz. Este que era um pianista branco descendente de rutenos me parece que foi um dos precursores do jazz modal, mas se prestarmos a atenção nele tocando e ver entrevistas, podemos chegar a conclusão de que é completamente perceptível que ele tinha uma formação bem sólida e que estudou a dita música erudita européia. Ron Carter que provavelmente é o baixista vivo mais importante do jazz, começou tocando cello em orquestra e depois virou contrabaixista de jazz. E a pergunta é: Por que no piano e em outros instrumentos é necessário estudar limpeza de sonoridade, fraseado, repertório de diferentes períodos da música ocidental, e no violão não precisa? Ué, mas quem disse que não precisa? Eu acredito que nós brasileiros muitas vezes temos uma postura de iconoclasta, mas da pior forma possível... Como alguém pode ignorar 4 séculos de repertório do instrumento e ainda ser considerado um grande intérprete?
Não acredito que precisa-se ter uma distância entre musica erudita e musica popular, principalmente em um instrumento como o violão que proporciona uma liberdade e uma proximidade entre estes dois universos os quais na minha opinião quando somados acrescentam a ambos os lados.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Aforismo

Será que todos nós sabemos algum aforismo edificante? Acredito que hoje em dia essa coisa de personalidade própria está na moda. Todos nós temos um jeito de se vestir, uma casa com um design de acordo com nossa personalidade e etc... Então por isso penso que todos tem um aforismo preferido... Gilles Lipovetski já nos explicou sobre a Felicidade paradoxal contemporânea, e dentro deste discurso ainda nos disse que os museus e salas de concerto em geral estão mais lotadas do que nunca, mas que mesmo assim isso não siginifca um tipo de profundidade no ser humano contemporâneo, muito pelo contrário. Talvez a observação de Baudelaire nos ajude a entender isso, ele escreveu que quem vai ao Louvre só pra ver o quadro da Mona Lisa nunca vai entender o porquê este quadro é tão importante. Lembro-me de quando eu era criança e meu pai dizia um aforismo no qual as formigas só não dominam o mundo porque brigam entre si... Até hoje não sei se ele estava falando sério ou não, mas fazendo uma analogia óbvia acredito que esse seria o caso das mulheres, que só não dominam o mundo porque brigam entre si. Devaneios a parte, vou terminar o texto com um aforismo de uma mulher de personalidade conhecida como "Madre Teresa" que diz: Quem julga não tem tempo para amar!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Compositor...

A palavra "compositor" é um lugar-comum aqui no Brasil. Basta escrever algumas estrofes, enfiar 3 acordes e pronto, já é. Não sei quanto ao português de Portugal, mas aqui no Brasil tanto Bach, Stravinski, Alban Berg quanto Nando Reis, Renato Russo e Djavan são compositores... Mas peraí, não entendi isso! Quer dizer que a terminologia usada para quem escreve uma peça para um coral a 4 vozes ou para uma orquestra de 80 pessoas, (sendo que será escrito cada nota, todas as respirações nas frases musicais, cada articulação, e tudo isso tentando usufruir ao máximo o desenvolvimento dos recursos que exploram a linguagem de cada instrumento) é a mesma usada para quem faz uma canção com algumas estrofes e alguns acordes? Veja bem, não quero depreciar os poetas e muito menos as canções, apenas quero entender melhor o uso da mesma definição para diferentes propostas. Na língua inglesa existe uma diferença decisiva nos termos empregados para isso e que poderia esclarecer qualquer dúvida. Existe o "composer" que é aquele que escreve música em um discurso apenas com a dialética dos sons, e acredito que hoje os melhores exemplos e mais acessíveis seriam os compositores de trilha sonora como Howard Shore ou Trevor Jones entre outros... E existe a palavra "songwriter" para aqueles que escrevem canções, como Madonna, Michael Jackson... E isso é uma tremenda diferença ignorada apenas por causa do uso da mesma palavra... Se lembrarmos que Arnold Schoenberg disse que o "composer" é um filósofo mas que seus pensamentos são em forma de sons, talvez entederemos a grande diferença entre escrever música e escrever canções... Ou será que não há diferença entre um filósofo e um poeta? Ok, sabemos que o ser humano pensa por analogia , e foi por isso que escrevi essa observação do gênio germânico. A verdade é que escrever música é uma arte muito mais complexa e difícil do que brincar com palavras, e admito isso aqui, mesmo que eu esteja fazendo exatamente essa "brincadeira" neste momento...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Todos os olhos

Sim, este é o título do famoso vinil lançado por Tom Zé no começo dos anos 70, mas o que eu não sabia, era que a genial e polêmica idéia da capa tinha sido do intelectual Décio Pignatari. Acredito que Décio Pignatari, Mário de Andrade e Augusto de Campos são nomes que deveriam estar muito mais em evidência, afinal estes entre outros fazem com que exista um verdadeiro orgulho em ser brasileiro. Intelectuais a favor da cultura e do conhecimento. Sérgio Buarque de Holanda já escreveu e nos explicou que no Brasil a maioria dos intelectuais usam a vasta cultura que possuem como um troféu a favor do próprio ego. Tenho certeza que não é preciso ser intelectual para ser sábio. E escrevo isso aqui para que tenhamos "todos os olhos" nestes que citei...
E para terminar vou parafrasear uma pequena parte de um texto traduzido por algum desses aqui citados: "A alfabetização fonética deu ao homem um olho por um ouvido- e esta é, social e politicamente, talvez a mais radical explosão jamais ocorrida em qualquer estrutura social."

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Quase

Quase não escrevi aqui... Um pensamento ali, outro por aqui. Norman Mailer disse que o ato de escrever é visceral, algo talvez como abrir as próprias vísceras ou veias e arrancar o sangue e toda a energia que nos mantém vivos... Começo a crer que o "quase" é assustador. Descobri que receber um "não" de uma mulher maravilhosa, não é a pior hipótese. Creio que o "quase sim" é pior. Todos nós sabemos que a covardia é mãe da crueldade. E dizer sim em um dia e dizer não em outro, é um "quase sim" peremptório. Foi quase legal...
Bom, termino por aqui e já logo aviso que eu quase apaguei esse texto.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Viva a roda!

O "Roda Viva" ontem quase me matou! Começando o texto com uma hipérbole, o que é muito comum no senso de humor brasileiro.... Não entendi o que aconteceu ontem neste maravilhoso programa da TV Cultura. Procuro assistir sempre que possível, e ontem o entrevistado era Lynch. Este eu conheci pessoalmente, se é que posso encarar desta forma nosso lacônico diálogo durante um efêmero encontro na Livraria Cultura.
Ele veio ao Brasil com a intenção de divulgar seu livro de meditação transcedental e praticamente só queria falar nisso. Depois da palestra que fui em agosto e depois de ter assistido ao programa ontem, entendo porque ele não queria falar sobre seus filmes. Muitos não entenderam essa "vibe" de meditação transcedental, mas eu acreditei, e acho que as respostas decoradas servem para perguntas idiotas... Lembro-me que enquanto ele autografava meus filmes, eu perguntei uma só coisa, algo em que acredito que está na essência da obra dele, mas quando eu disse, me pareceu que ele fingiu que não ouviu, mas alguns segundos depois olhou-me e disse: This is not gonna work! E até hoje penso em algumas interpretações para o que essa frase quis dizer naquele momento, mas a correria e o caos estavam transbordando dentro da pacífica livraria naquele dia. Quando David acabou de rabiscar nos dvds, olhou nos meus olhos apertou minha mão e disse "obrigado" com aquele sotaque de americano...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Atuando...

Tenho que começar esse texto admitindo que quase não assisto a televisão, mas que um dia desses vi grandes atores na TV, e não, não foi na novela e nem em seriados, foi algo muito mais "divino"... Acredito que estes atores sejam uma espécie de "jazzistas", pois não consigo crer que eles decorem textos, acho que a maior parte do "atuar" seja improviso. Alguns destes cantam e interagem com a platéia, uma maravilha total. Nos últimos anos, aqui no Brasil aconteceu uma produção de grandes filmes, mas podemos perceber que são quase sempre os mesmos atores, os quais não preciso citar aqui porque todos nós já sabemos quem são. Não sei se é impressão minha, mas todos os atores brasileiros que dão entrevistas dizem que entre trabalhar no teatro e na TV, preferem o teatro... Acredito que apenas uma característica defina a diferença entre um bom ator e um ator medíocre, afinal se estes vão fazer um teste, eles vão ler e decorar o mesmo texto, então me pergunto qual seria essa tal diferença? Muito simples, o que realmente muda é "como eles vão dizer o texto", qual a entonação, a intenção e a interpretação do texto, só isso, mas isso muda muito... Claro que o ponto aonde quero chegar é um só, e inclusive é a principal intenção deste blog, ou seja, "a leitura". Não tenho certeza mas me parece que a média de livros por ano entre os brasileiros é algo em torno de 3 ou 4 livros contando com os livros educacionais das escolas ou faculdades, claro que alguns lêem apenas o capítulo necessário, aquela lei do mínimo esforço imanente a mentalidade enraizada por aqui que já conhecemos bem. Então eu me pergunto, como um ator que lê 3 livros por ano vai ter bagagem para entender e perceber a densidade de encenar uma peça de Ibsen ou Garcia Lorca? Mas isso não me impressiona, o que me impressiona são os atores jazzistas que citei no começo do texto, estes que fazem paralíticos andarem, e que arrancam o dinheiro e a alma dos miseráveis. Queria entender como eles conseguem dormir, pois explorar diariamente a ignorância alheia e conseguir dormir bem é praticamente um "milagre", já que eles usam tanto essa palavra... Já que falei em cinema vou citar Ingmar Bergman, este que era filho de um pastor luterano fanático, e que na maioria dos seus filmes tentou nos mostrar sua relação com Deus, ou a falta de crença neste, mas no filme "Através de um espelho" Bergman nos brinda com um belo conceito de Deus no fim do filme, pois o ator em um diálogo decisivo diz que não acredita em Deus, mas que quando pensa que Deus é o amor, as coisas parecem melhorar...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Tudo bem?

Talvez essa seja uma das frases mais repetidas do nosso cotidiano, mas eu me pergunto será que é possível está "tudo bem" mesmo? Tudo? Não sei, mas uma pergunta que me intriga também e que é muito comum ser usada nesse meio virtual é: "Como voce tá?" Talvez essa pergunta seja mais razoável, mas dependendo aonde colocarmos a vírgula temos outro contexto, por exemplo se perguntarmos a uma beldade feminina: "Como vc, ta?" Acho que a pergunta pode ter outra conotação apenas por causa de uma vírgula. E como diria o maestro Abel Rocha, vírgula não é orégano que voce joga pra cima e cai em qualquer lugar. Mas eu gosto mesmo é do Saramago fazendo uso da vírgula, esse sim nos mostrou estilo na pontuação e na língua portuguesa. A verdade é que uma nação é definida pelo seu idioma, pois no dialeto e no idioma já está imanente uma forma de pensar e de ver o mundo. Se não me engano foi em 2006 ou 2005 quando comecei a estudar as 4 estações de Astor Piazzolla... Cheguei na aula querendo mostrar o "Verano porteño", e meu mestre disse: Está lido e decorado, agora falta o "sotaque"! E assim como todos os grandes mestres, ele tentou me orientar para conseguir achar o sotaque coerente com o estilo e me deu a dica: Veja filmes argentinos, preste a atenção no jeito que eles falam, a entonação, a métrica e a divisão das palavras nas sentenças... E por falar em sotaque, posso comentar aqui que minha amiga portuga adora o sotaque carioca, afinal o jeito que os cariocas acentuam e falam o "s" é consequência da grande colônia portuguesa no RJ, e o "r" carioca vem de resquícios da língua francesa. E agora para terminar esse texto quase erudito, vou usar aquela eloquência na qual as pessoas gostam do que elas se identificam, e aqui no Brasil não podemos ser muito eruditos porque soa "arrogante", então vou terminar em grande estilo e de uma forma acessível sem pretensões intelectuais, algo que todos sabem como fazer, ou seja, vou sair para fazer um churros...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O grande jogo

Não sei se entendi por quê após a vitória de um time de futebol os torcedores fazem barulho, gritam, e apertam a buzina compulsivamente frenéticos pela cidade, afinal por que meus ouvidos tem que compartilhar essa baderna? Tudo bem se voce disser que meus ouvidos são "emo", e que estou sendo um chato, mas o que eu posso fazer se ouvir é um ato involuntário? Talvez o único de nossos sentidos ao qual não conseguimos nem por um segundo ter controle, o máximo que podemos fazer é selecionar o que ouvir, mas mesmo assim, isso só é possível em algumas situações... O que acontece é o inevitável, ou seja, acabo por torcer contra os times grandes, pois quero simplesmente dormir com o barulho que já estou acostumado. Sempre achei que o jogo e o esporte são situações artificiais que criam tensão e relaxamento assim como a vida.
Lembro-me muito bem quando eu e Faboi levamos as nórdicas ao Maracanã, o jogo era Fluminense e América. Quando entrávamos no estádio, eu falei para a sueca: Karl Marx disse que a religião é o ópio do povo, mas se Marx fosse brasileiro, ele diria que o futebol é o ópio do povo, mas o que impressionou a sueca foi a goleada de 6 a 1 do Flu em cima do América...
Diga-se de passagem que uma das primeiras coisas que o argelino Albert Camus pediu após chegar ao Brasil foi que o levassem para assistir a uma partida de futebol. Fico imaginando como seria o autor de "O estrangeiro" excitado no meio da torcida... Mas agora tenho que recordar que Sócrates já nos ensinou que é realmente importante no jogo da vida não é saber as respostas, mas fazer as perguntas certas, e por isso estou começando a crer que os escritores contemporâneos chegam aqui ou em qualquer lugar do mundo e perguntam: Aonde posso jogar eXistenZ?

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Brincadeira?

As crianças tem brinquedos e depois que crescem brincam com as palavras, e estas acabam se transformando no brinquedo do adulto. É verdade que a palavra impressa destribalizou o homem do ocidente, e o individualismo chegou as ultimas consequências por causa disso. Simone de Beauvoir escreveu que a infelicidade dos homens é causada pelo simples fato de um dia eles terem sido crianças, afinal de contas a criança pode chorar quando quer, reclamar e ter liberdade pra fazer tudo simplesmente por ser criança, e depois disso, esta cresce e sua vida agrega várias obrigações e muitas destas estipuladas por limite de tempo pouco confortável para sua execução... Talvez o motivo mais importante para brincar com as palavras seja por causa das mulheres, e para ajudar a entender isso vou citar mais um autor de peso, Oscar Wilde e esse já nos ensinou que os homens amam com os olhos e as mulheres amam com os ouvidos. O que seríamos de nós com nossa masculinidade grotesca sem a sensibilidade feminina para nos melhorar como pessoas? Sim, elas fazem com que sejamos melhores, e no fim nós só queremos contempla-las e satisfaze-las mesmo, arrancar um sorriso, ou tentar a missão impossível de entende-las... Como diria um falecido mestre: "Não basta amar, tem que dizer!"
Sim, e elas nos fazem dizer, ou seria brincar? "Brincar" digo por causa das palavras que são brinquedos, ou pela simples questão de que qual homem nunca ouviu observações a respeito de brincar com o sentimento de alguma donzela...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Talento ou trauma?

Lembro-me de uma aula em que o professor Marcos Pupo disse que a palavra "talento" teria surgido apenas no século XIX... Ás vezes o peso de uma palavra muda a vida de alguém, ou pode até atrapalhar. Bukowski escreveu que ao dizer a uma pessoa que esta possui talento e de fato ela não o possuir, é uma das formas mais eficazes de incentivar alguém a perder tempo. Se realmente a personalidade é construída por traumas, pode-se entender que o peso das palavras pode causar danos quase irreversíveis. Kierkegaard escreveu que o "eu" é a síntese do finito com o infinito. Acredito que o ser humano tem fascínio pelo infinito... A internet já nos apresentou o grande oráculo chamado "Google" e o infinito, até porque a electricidade não significa apenas o espectacular, mas a construção do reino da luz. Mas o que Platão acharia do nosso oráculo se ele acreditava que o livro era uma espécie de muleta, e que a oratória era o melhor caminho para aprender e absorver as coisas? O problema com o reino da luz e o infinito é se enforcar com a corda da liberdade, afinal nós nos tornamos o que contemplamos. Ok, temos o oráculo, o infinito, mas mesmo assim ainda acho que a humanidade não conseguirá se desfazer dos dois tipos mais comuns de extirpar a realidade, que são as drogas e o luxo, aliás, falando nisso, acho que hoje está um belo dia para saborear um carménère, fui...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Começo...

Hoje Pavão, amanhã espanador! Gostei dessa, afinal de contas achei que começar o Blog com essa frase seria coerente... Estamos no momento aonde a fama pela fama e a vida imortal são sonhos de consumo, e aqui é possível falar sobre a internet na qual a revolução da descentralização já acontece por algum tempo, até porque o único perigo que existe ao escrever é que as pessoas leiam... Seria puro narcisismo ter um Blog? Se partirmos do príncipio que narciso vem de "narcosis" uma palavra grega que significa entorpecimento... E por isso me pergunto o que é mais edificante, quem escreve e faz isso para se entorpecer ou se aqueles que já estão entorpecidos começarem a escrever ou ler... Acredito que citar o pensador mais influente do oriente seja necessário neste momento: Só merece ser mestre aquele que toda vez ao ensinar a mesma coisa, aprende algo diferente. Confúcio
Ás vezes tenho a impressão de que no Brasil existe um certo desmerecimento pela profissão de professor, queria entender bem o por que disso, afinal acho que a raiz dos nossos problemas está completamente conectada com este tema da educação... Precisa-se de estímulo para estudar, pois a busca pelo conhecimento é a busca pela verdade, e boas referências é o mínimo para não cair na ingenuidade do narcisismo infantil de olhar para si mesmo e se achar mais do que é.
Como diria Fernand Braudel, nossas vidas são marcadas pelas pessoas excepcionais que passam durante o decorrer de nossa existência. Vou terminar esse texto por aqui porque preciso estudar, afinal saber as próprias limitações é o único jeito de evoluir, e agora vou encara-las nesta infinita batalha...

domingo, 26 de outubro de 2008